O assunto XO continua sendo discutido nas diversas listas de discussão. Lendo algumas mensagens enviadas à lista OLPC Brasil, me lembrei de dois textos interessantes sobre formação docente. O primeiro deles é do professor José Armando Valente, do NIED (Núcleo de Informática Aplicada à Educação) da Unicamp. Na verdade o texto, "Formação de profissionais na área de Informática em Educação" é um capítulo do livro "Computadores e Conhecimento: Repensando a Educação". Publicado em 1995, além de explorar dos paradigmas que podem ser usados na informática aplicada à educação, instrucionista ou construcionista, e do papel do professor em cada um dos casos, aborda a questão da capacitação docente dentro dessas visões. Se a tecnologia for utilizada dentro de uma visão instrucionista o professor deve passar por um curso de treinamento, já na construcionista deve acontecer um curso de formação:
"O treinamento consiste na adição de conhecimentos e técnicas de informática ao que o professor já realiza em sala de aula. Isto pode consistir em colocar um disquete na mão do professor afim de que ele use o computador como máquina de ensinar ou, adquirir uma técnica nova de Logo, como por exemplo, adicionar LEGO-Logo ao conhecimento de Logo já existente." "O curso de formação deve ter como objetivo uma mudança, ou pelo menos propiciar condições para que haja uma mudança, na maneira do profissional da educação ver a sua prática, entender o processo de ensino-aprendizagem e assumir uma nova postura como educador. É isso que defendemos e esperamos que aconteça com o paradigma construcionista."
Para o autor:
"(…) a presença do computador no processo de ensino-aprendizagem segundo o paradigma construcionista é tão fundamental que torna a formação de profissionais na área diferente do que acontece com outros cursos de formação. O construcionismo coloca em xeque a postura do professor e requer mudanças profundas na sua postura. Isso faz com que a formação desses professores, nessa nova abordagem educacional, apresente certas peculiaridades que a torna diferente da formação em outras áreas.
As peculiaridades de um curso de formação para professores que não dominam a informática:
"O uso da informática em educação não significa a soma de informática e educação, mas a integração dessas duas áreas. Para haver integração é necessário que haja domínio dos assuntos que estão sendo integrados. E a informática, para muitos educadores cuja formação é ciências humanas, pode se tornar problemática. Além disto, o domínio da informática implica, entre outras coisas, no domínio do computador. Por outro lado, os aspectos educacionais, psicológicos e sociais para o profissional que conhece somente informática também pode ser muito problemáticos.
(…) O participante do curso deve vivenciar situações onde a informática é usada como recurso educacional, a fim de poder entender o que significa o aprendizado através da informática, qual o seu papel como educador nessa situação, e que metodologia é mais adequada ao seu estilo de trabalho. Somente com esta experiência o profissional terá condições de assumir uma nova postura como educador que utiliza a informática em educação.
(…) o curso de formação deve propiciar as condições necessárias para que o profissional domine o computador - um processo que exige profundas mudanças na maneira do adulto pensar - e que ele se sinta confortável e não ameaçado por essa tecnologia."
As peculiaridades de um curso de formação para profissionais que dominam a informática, mas que não possuem formação pedagógica:
"Para o profissional que conhece informática a situação não é diferente. Ele não deve assumir que a função de educador acontece de maneira natural somente porque ele "gosta de criança". É necessário fornecer a esse profissional a base teórica e prática desta nova metodologia que enfatiza o aprendizado e não o ensino. Nesse caso, o objetivo da formação desse profissional não deve ser a aquisição de técnicas ou metodologias de ensino, mas conhecer profundamente o processo de aprendizagem, como ele acontece e como intervir de maneira efetiva na relação aluno-computador, propiciando ao aluno condições favoráveis para a construção do conhecimento. Para esse profissional, a ênfase do curso deve ser a criação de ambiente de aprendizagem, onde o aluno executa e vivencia uma determinada experiência, ao invés de receber do professor o assunto já mastigado. O curso de formação para este profissional deve enfatizar a criação de situações onde ele possa adquirir esta postura. Isto deve ser feito através do contato com diferentes teorias sobre processos de aprendizagem e a vivência destas teorias, de modo a poder se tornar um verdadeiro educador, no sentido prático e teórico do termo, e vivenciar situações conflitantes, onde esse profissional tem que assumir posições nem sempre ideais e com isso começar a perceber que na área da educação as coisas não são totalmente brancas nem totalmente pretas."
Para o professor Valente em todos os cursos de formação é interessante que se promova situações em que ele possa observar alunos usando o computador, para que se prepare para observar e diagnosticar potenciais e deficiências, para poder intervir e auxiliar seus alunos. Isso porque:
"A prática com o computador e o uso do computador no trabalho com alunos cria situações de conflito que levam o aluno-professor a questionar sua postura, refletir sobre sua prática pedagógica, refletir e questionar a prática pedagógica a que está submetido, e a iniciar um processo de mudança de postura como educador, diferente daquela de professor repassador de conhecimento. Assim, o curso de formação na área de informática em educação deve prover condições para o participante vivenciar estas situações de conflito e, sob a orientação de especialistas no assunto, identificar os pontos mais importantes deste aprendizado e iniciar os primeiros passos na direção da mudança de postura como educador." íntegra do texto
O outro texto, mais recente, não aborda diretamente a questão da formação na área de informática educacional, mas traz reflexões importantes que devem ser levadas em conta na preparação de cursos de formação em qualquer área de conhecimento. Trata-se do artigo "Formação Docente a partir da experiência vivida", de Fernando Hernández e Juana Sancho que foi publicado pela Revista Pátio (nº 40, novembro de 2006/ janeiro de 2007). Os autores fazem uma reflexão sobre a experiência que tiveram enquanto formadores de professores. Consideram que "a experiência de formação não deve vir de fora como uma tecnologia salvadora que promete a solução ou o remédio para os problemas da educação." Apresentam alguns "pontos" que deveriam se levados em conta nas propostas de formação docente:
(…) os docentes não aprendem em contextos de formação que os desautorizam, que não vinculam seu desenvolvimento profissional ao seu saber e a um projeto de melhoria.
(…) não existem fórmulas que sejam válidas para todos e em todos os lugares. O conhecimento educacional acumulado deve ser apropriado e submetido à crítica em função de cada história e contexto.
(…) a teoria tem sentido na formação quando ajuda a se reconhecer na prática, a dar nome ao que acontece na sala de aula ou na escola, orientando-nos na práxis diária, e não quando leva a denominações vazias que separam os educadores de sua atividade e da construção de seu próprio saber.
(…) o educador aprende quando se sente tocado, quando encontra espaço para que sua experiência se converta em fonte de saber que vá além da ação imediata e que se projete em uma atividade que o ajude a aprender consigo mesmo e, sobretudo, que o comprometa.
(…) é a indagação sobre suas experiências significativas que lhes permite não apenas constituir-se como autores, mas também aprender consigo mesmos e com os outros. Dessa aprendizagem decorre o conhecimento que se encarna na práxis.
(…) o caminho do conhecimento é um trajeto que impõe reconhecer a dor que implica saber: o que contradiz a posição do conhecimento como atividade prazerosa, recepção alienada ou euforia salvadora. Com essa dor, a formação parte da "incerteza", não como um "não saber", mas como possibilidade de saber. Como meio de enfrentar o risco de não começar do zero, já que o conhecimento começa quando a pessoa se reconhece, ou quando é capaz de se reconhecer no conhecimento existente.
(…) uma pessoa aprende melhor se o aprender não é considerado apenas como um ato cognitivo, e sim como uma experiência vinculada à construção de sentido, relacionada à própria pessoa, aos outros e ao mundo.
Se vale um testemunho pessoal: os cursos de formação que realmente fizeram diferença em meu fazer pedagógico foram aqueles que me levaram a uma revisão do que fundamentava e constituía a minha prática. De muito pouco me adiataram aqueles em que os professores me passaram receitas, ou passo-a-passo de determinada metodologia.



















Olá Miriam!
Achei o seu blog fantástico!
Esses textos de autores famosos…Adorei!
Parabéns! Abração,
Josete
preciso encontrar fotos, dados biográficos do educador Fernando Hernandez, para o seminário que irei apresentar na faculdade. Sou estudante do 1º perÃodo de História na Faculdades Integradas Simonsen. Agradeço antecipadamente toda a atenção dispensada.