Para pensar...

“Ensinar inexiste sem aprender e vice-versa e foi aprendendo socialmente que, historicamente, mulheres e homens descobriram que era possível ensinar.”
 Paulo Freire

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Um passo de um aprendiz…

Outro dia escrevi aqui sobre a participação do Adriano, um ex-aluno muito querido, no Projeto Reciclando que teve seu iní­cio a partir do trabalho com a Carta da Terra. Naquela época, pedi ao Adriano que escrevesse um relato sobre sua participação no projeto: penso que a experiência dele pode servir de inspiração para que escolas e professores estimulem o protagonismo juvenil. Além disso, uma forma de divulgar a Carta da Terra e a possibilidade de a partir dela, levar crianças e jovens "a pensar globalmente e agir localmente". Hoje, um dia antes do Dia da Terra, recebi o relato do Adriano. Publico o relato me sentindo muito orgulhosa por ter participado dos bastidores da sua trajetória. Comentem, deixem suas mensagens para que esse jovem continue acreditando que é possí­vel se fazer algo pelo planeta!

"Um passo de um aprendiz… Meu nome é Adriano Fidalgo Yamamoto e minha história pelo projeto começa no ano de 2004, quando tinha 16 anos e estava no segundo ano do ensino médio. O projeto já existia desde 2003. Ele nasceu a partir do Projeto Terra-Cidadã, o Planeta que queremos, inspirado na Carta da Terra, que foi um trabalho desenvolvimento pela coordenação do Colégio Notre Dame de Campinas na tentativa de conscientizar os alunos para a situação ambiental do planeta Terra. Motivados com a mensagem da Carta da Terra, alguns alunos procuraram a coordenação geral da escola para iniciar um projeto de caráter ambiental dentro da instituição. Iniciaram-se as reuniões nas quais foram definidas algumas características básicas do projeto, como o objetivo, a forma de atuação, o nome, entre outros aspectos importantes que dariam cara ao projeto. Nascia ai o Projeto Reciclando. O primeiro passo do projeto foi na Festa Junina de 2004, onde os alunos atuaram coletivamente em relação ao lixo produzido no evento. A festa foi marcada pela limpeza e reaproveitamento de grande parte do material reciclável. O bom resultado para as cooperativas parceiras do projeto foi a base para um planejamento de expansão dentro do próprio colégio. No segundo semestre, os membros do projeto, a maioria do terceiro colegial daquele ano, inevitavelmente tiveram que diminuir sua participação devido aos vestibulares que se aproximavam. Porém, ainda havia alguns alunos de outros anos que eram membros. Na metade do semestre, meu amigo Lucas me convidou para conhecer e participar do projeto. O meu primeiro passo foi participar da restauração, organização e distribuição dos latões de lixo que o projeto conseguiu através da parceria com uma loja de tintas. O meu interesse pela questão ambiental aumentava a medida que participava das reuniõs semanais e dos pequenos atos que desenvolví­amos. Mas, com o fim do ano, tive que me despedir daqueles que plantaram a semente da paixão pela natureza dentro de mim.

As férias me serviram para ir atrás de maiores informações sobre o lixo e sua relação com o meio ambiente. E quando as aulas recomeçaram em 2005, fui para o terceiro colegial pensando muito mais na continuação do projeto do que na minha vida acadêmica.

Tive que pagar meio caro por essa opção, pelo fato de ter muitas notas "vermelhas" no decorrer do ano letivo, mas, a recompensa que tive foi sensacional. Quando aconteceram as primeiras reuniões do ano, pude perceber que entre os participantes havia uma baixa motivação pela saída dos "pais" do projeto e as esperanças de sucesso estavam depositadas nas minhas mãos e de Lucas, por sermos mais velhos, por termos tomado à frente do projeto e assim, chamando a responsabilidade para nós. A primeira idéia para o novo ano era fazer uma semana de intensa conscientização. A idéia foi trabalhada em conjunto. A Semana-Reciclando tinha que ser preparada na sua programação, conteúdo e tinha que ser bem organizada para conseguirmos espaço na grade horária de sétima série até terceiro colegial. A inspiração para prepararmos as informações que seriam transmitidas aos alunos foi originada de um dia de pesquisa em uma cooperativa de reciclagem, uma visita ao aterro-sanitário sob coordenação de um técnico especializado e uma reunião com o ex-secretário do meio ambiente de Campinas. A "semana" foi composta na verdade por 3 dias. No primeiro, apresentamos o projeto, através de uma apresentação em Power-Point, em seguida mostramos uma entrevista com um ex-professor de geografia, nosso saudoso Tarcisio, que lecionava no colégio e sempre foi muito querido pelos alunos, e pra finalizar, um documentário produzido por nós, mas com um maior empenho do meu companheiro Lucas. No segundo dia ocorreu uma palestra da Senhora Cheda, a pessoa que iniciou as atividades da Cooperativa Aliança, parceira do projeto, em seguida emendamos com uma mesa redonda e para finalizar exibimos o tradicionalíssimo documentário "Ilha das Flores". E no terceiro dia, alguns professores foram convidados a dar um curto depoimento sobre a questão ambiental, o lixo e também sobre o projeto. Logo depois abrimos um espaço pros alunos se manifestarem. Durante o evento pude observar o comportamento dos alunos que não foi tão positivo. Um grupo de pessoas que são tão alunos quanto eles, querendo ensinar alguma coisa. Talvez isso tenha sido um dos motivos pra algumas risadas e piadinhas. Mas usamos isso como mais um desafio a ser encarado. Queríamos mostrar o nosso valor. E conseguimos. As pessoas começaram a respeitar um pouco mais o ambiente da escola. Os colegas mais próximos faziam questão de jogar os seus resíduos no lixo, na minha frente e me contar em tom de brincadeira. Eu interpretei isso como uma semente que eu consegui plantar dentro deles, mas a timidez de fazer a coisa certa gerava esse tipo de reação. Durante o dia-a-dia, alguns professores de outras séries me reconheciam pelo corredor, mesmo sem falar nada, só pela forma que me olhavam já dava pra perceber. E para conseguir alcançar todas as metas para que essa semana especial acontecesse, contamos com o forte apoio da coordenadora geral, a querida Sônia. Passou-se um mês e chegava a Festa Junina de 2005. Nas reuniões, surgiam idéias sem parar e o grupo estava muito mais unido e acreditando muito mais no projeto, por causa da boa repercussão que pudemos observar, que era muito mais comentada do que vista com os próprios olhos. Logo decidimos a programação das atividades que irí­amos fazer. Como nosso tempo era curto para deixar tudo pronto para o dia da festa, providenciamos os materiais rapidamente e logo colocamos a mão na massa. Pintamos todos os latões que estariam disponíveis na festa em duas cores, verde e preto, o verde para o reciclável e o preto para o não-reciclável, colamos uma folha em cada mesa, na qual continha informações sobre os possíveis resíduos e a sua correta separação entre sacolinhas (verde e preta também), providenciamos alguns banners que seriam colocados em diferentes pontos do espaço destinado à festa, contendo frases de pedido de colaboração com a higiene da festa e finalmente, conseguimos colocar uma barraca do projeto, onde seria um ponto de encontro da equipe e o guarda-coisas que irí­amos precisar no dia. O lixo que conseguimos juntar foi destinado a uma cooperativa de reciclagem que emprega pessoas que vivem do lucro da reciclagem, a cooperativa Aliança! Para o dia da festa, reservamos algumas atividades um pouco mais especiais. Fizemos um mutirão pela festa, com todos da equipe, passando e recolhendo latinhas do chão, com o apoio do professor Márcio de física, que estava no megafone anunciando esse mutirão e pedindo a colaboração de todos os presentes. Ao anoitecer, quando já tinham se passado todas as danças, de todas as séries, preparamos um momento de divulgação do projeto. Conseguimos alugar um telão, que ficou instalado no campo de futebol (onde ocorre todos os anos uma cerimônia religiosa e uma bonita queima de fogos), e assim apresentamos ao público o nosso documentário. Naquele enorme campo de futebol, onde estava tudo escuro, o documentário sendo transmitido. Assim que acabou, começou a tocar uma música que escolhemos, chamada ária do músico Yanni. Nesse momento, eu puxei uma fila, onde estavam todos os membros de mãos dadas, antigos e atuais, vestidos com a camiseta do projeto. Fizemos uma fileira, saudamos o público e em seguida eu, meu grande amigo Lucas e a pioneira do projeto, Luciana, fomos na frente de todos ler um pequeno texto. Nesse momento, a luz do holofote se voltou contra nós três e era hora de discursar. Minha mão tremia muito e mal conseguia segurar o microfone e a folha. Com o apoio da Luciana, falando "Calma, você está¡ muito nervoso!  " agora e eu to aqui junto com você. Vamos lá", eu consegui ler nitidamente o texto: Senhoras e Senhores, Boa Noite!

Há dois anos, nasceu o Projeto ReciClaNDo. Um projeto que se formou pela busca de um ideal, através da união e alunos do ensino médio. Na Festa Junina do ano de 2003, na qual Éramos pouco conhecidos e dávamos nossos primeiros passos, começava nossas primeiras atividades. No decorrer dos anos, ganhamos maior destaque e hoje ao completar dois anos de vida, continuamos na ativa. Pois foi hoje que dedicamos algumas horas do nosso dia a uma questão tão importante, tão problemática e talvez tão ilimitada. Mas, que anteriormente conquistou nossas mentes e nos moveu a exercer este ofício. Um trabalho que é digno de nossa própria vontade de alcançarmos um Colégio cada vez mais consciente, com pessoas mais ativas e alunos mais participativos. . Gostarí­amos de agradecer a diretoria, professores e funcionários do Colégio Notre Dame que nos apoiaram durante todo o desenvolvimento de nossas atividades até agora e esperamos um apoio cada vez maior, pois o projeto não pode parar de crescer. Em especial aos ex-alunos que foram os grandes responsáveis pelo nascimento do Projeto. Esperamos que hoje cada pessoa presente nesta festa, possa levar para si uma lição, e que a partir dessa lição comece a agir com maior espiritualidade e cidadania em relação ao Meio Ambiente. Boa Noite e Obrigado. Logo em seguida, Luquinhas também leu um texto, que não consegui ter acesso para expor aqui. Quando os dois terminaram de ler, nós três olhamos para trás e muitos choravam. Nos abraçamos por algum motivo que vai muito além da sensação de missão cumprida, muita além da amizade que nasceu junto com a vontade de praticar o bem, um motivo que até hoje não o descobri. Mas o que realmente importa, é que em um ou em muitos abraços, você consegue expressar mais de uma sensação, mais de um sentimento e demonstrar inúmeras razões para tal ato. Sabia que aquele evento seria minha última grande atividade pelo projeto. Depois dele, viriam as férias, depois viriam os inúmeros churrascos e confraternizações do último ano de colégio e no meio disso, a tão esperada viagem de formatura para Porto Seguro. E finalmente os vestibulares e a festa de formatura. Depois da festa Junina, fizemos mais uma atividade significativa com uma série do primário e ai então no segundo semestre, na gestão de coordenador do projeto junto com Lucas, não realizamos maiores eventos. Mas, um outro grande acontecimento foi em um dia comum, quando a coordenadora Sí´nia nos chamou na sala dela e disse que havia recebido um convite da Câmara Municipal de Campinas para participar de uma discussío sobre a questão da incineração do lixo hospitalar, da reciclagem e a aprovação ou não do desmatamento de uma área de 50 mil m² para formar um novo aterro sanitário, pois aquele que estava em operação estava beirando o esgotamento. Como ela não poderia estar presente, nos repassou esse convite e essa honra para dois alunos do ensino médio. Com um pouco de nervosismo, comparecemos í quela sessão. Do que me recordo, estavam presentes o representante do Instituto Agroní´mico de Campinas, do Condema, Secretaria do Meio Ambiente e o Sr.Cheda. Primeiramente, Lucas sentou-se í mesa para representar o Projeto e o colégio. Quando teve a palavra, apresentou o projeto, falou da nossa proposta de conscientização, a semana reciclando e da festa junina. Depois teve que se retirar por compromissos pessoais e ai então, fui chamado para sentar em seu lugar. Quando tive a vez de opinar, falei sobre o incentivo à reciclagem, corrupção do setor, burocracia na eficiência da coleta e reciclagem, parceria com cooperativas que leva a uma diminuição dos gastos públicos, transparência da polí­tica da prefeitura, maior presença do poder público na fiscalização (Cetesb) do lixo em Campinas. Essa experiência, fechou nosso ano de Projeto Reciclando com chave de ouro. Como disse o Luquinhas: "Foi com grande prazer e emoção que representamos pela primeira vez o projeto fora do colégio. Falando em nome de todos que um dia já participaram do projeto, com um vocabulário humilde de estudantes, chamamos a atenção de todos presentes, e com certo sucesso mostramos a todos a importância da vanguarda estudantil. Sem dúvida isso serviu como mais um estí­mulo para continuarmos a tona com o projeto." Para quem era mais um aluno do ensino médio, ter feito tudo isso que foi relatado nesse pequeno depoimento, foi um grande passo na vida. Ter tido a experiência de realizar um trabalho de caráter sócio-ambiental e ter tido a sorte de construir o mérito pessoal na companhia de pessoas como as que foram citadas, foi uma honra. Essa experiência foi tão significativa para mim, que a decisão do curso universitário – Gestão Ambiental – foi baseado na paixão com que fiz todas as coisas dentro do projeto. Uma grande bagagem que levo, tanto no lado profissional quanto no lado espiritual, onde vi com os próprios olhos o que é a pobreza camuflada do nosso país. Senti a podridão do desperdício ao ver pessoas sobrevivendo com aquilo que jogamos dentro da lata de lixo. Sentir a dor do tapa da desigualdade e desordem social. E ter tido a competência de tentar fazer algo para mudar essa realidade, mesmo que por pouco tempo. A luta não terminou e que venha os próximos desafios!

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7 comentários para Um passo de um aprendiz…

  • Caro Adriano, com certeza as gerações futuras precisam de jovens como você. Moro num local privilegiado pela natureza, cercado por uma reserva ambiental de mata atlantica e me angustio todos os dias ao ver balões, pessoas queimando lixo orgânico e inorgânico, turistas largando seu lixo nas encostas e ruas, moradores desmatando e a especulação imobiliária avançando cada vez mais. Precisamos de muitos jovens como você. Te mando um link pra visitar e conhecer nossa região e também trocar idéias;
    http://www.jornaldomeioambiente.com.br
    Parabéns e muita força!

  • Adriano,
    Parabéns pela sua atuação ! Continue sonhando e acreditando que esse mundo será melhor por causa de pessoas como você. Nunca deixe os seus sonhos serem chamados de utopia, pois não são! E acredite que “nem a força bruta pode um sonho apagar. ” Com carinho, Professora Andréa e seus alunos.

  • Adriano!
    Fiquei emocionada com teu depoimento, com teu empenho, coragem, esperança e persistência. Somos uma gota d’água num oceano, mas se cada um não começar as mudanças a partir de si mesmo, nunca teremos um mundo melhor. Às vezes, parece que temos de remar contra a maré, que os outros não vão valorizar ou que nossas pequenas atitudes não resolvem grandes problemas, mas precisamos acreditar em nosso potencial e seguir me frente. Podes ter a certeza que tua atitude deixou sementes que irão germinar. Parabéns!

  • Adriano, parabéns cara. Só com um depoimento, sem dúvidas, você consegue continuar participando ativamente do Projeto, pois a motivação que ele nos passa é enorme.
    E é essa semente que vocês deixavam plantadas nos outros alunos(na época, os integrantes atuais) que ainda nos mantem em pé, em busca de uma atuação legal e também um fortalecimento do próprio grupo, em busca de união e orgulho de participar do Projeto. Só dessa maneira conseguiremos continuar a conscientizar ou outros e a nós mesmo, em comunhão.

    Quanto a questão de seus sonhos serem chamados de utopia. Orgulhe-se, pois é das coisas mais admiráveis que existe, o mundo precisa muito disso. É como diz aquela frase que gosto muito, de Frei Betto: “Num mundo sem utopia, somos todos vítimas de tamanho desamor erigido como sinônimo de liberdade e modernidade.”

    Parabéns, abraço do Pedrinho.

  • sue david

    oi!!!

    estou desenvolvendo um projeto sobre reciclagem das ideias em relacao ao meio ambiente!
    Que ser parceira em ideias eu te envio para vc analisar. é possivel?

    att sue david

  • juliane

    espero um retorno…

  • Miriam Salles

    Oi Juliane!
    Não entendi que retorno é esse que vc espera!

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